Escravidão Negra no Grão-Pará (2a. edição, revisada e ampliada), de José Maia Bezerra Neto
Código do produto: 978-85-7803-100-8
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Após o êxito da primeira edição, a Editora Paka-Tatu publica a segunda edição deEscravidão Negra no Grão-Pará, de José Maia Bezerra Neto. Sobre a obra, a Professora Magda Ricci (UFPA, assim escreveu em seu prefácio: "Há mais de um século, por volta de 1878, José Veríssimo, um dos mais respeitados intelectuais brasileiros, enfatizava que a Amazônia, sua terra natal, era uma região “das menos povoadas por negros”.
Para o literato, “raríssimo” também era encontrar africanos em todo o extremo norte, “principalmente fora das capitais”, enfatizando ainda que, dentre estes poucos escravos existentes, era certo encontrar “um crescido número de mestiços da raça indígena”. Esta afirmativa categórica pode parecer absurda para quem – ainda hoje – vive em cidades como Belém, Macapá ou Manaus. Nestes espaços, a cultura negra e a força de sua tradição estão bem vivas no próprio uso da língua ou em festas, devoções, crenças e tantas outras manifestações cotidianas. No entanto, o público brasileiro distante desta área – ou mesmo o estrangeiro – de longa data foi levado a crer que a Amazônia era lugar de índios, com suas tabas, penas e maracás. Muitos ainda acabaram acreditando na existência de um território onde imperava o vazio demográfico. Terra de escassa população, parece senso comum perceber a Amazônia como uma floresta, cujos habitantes ocupam-se da simples coleta de produtos de origem vegetal, animal ou mineral.
Em meio a este imaginário da selva, sobressaem percepções muitas vezes preconceituosas, como se este espaço semivirgem fosse lugar do não trabalho, do atraso político, econômico e cultural. E do presente saltamos para o passado. Assim, não é de hoje que muitos estudos interpretam o que, à primeira vista, parece lógico: que o processo de ocupação do vasto território amazônico seria muito distante daquele forjado em locais como Bahia, Pernambuco,São Paulo, ou Rio de Janeiro, onde a colonização caracterizava-se pelo trabalho escravo, africano, edificado em grandes lavouras agroexportadoras. Desta forma, mais uma vez, a Amazônia ressurgia como uma terra distanciada e tardiamente integrada ao modelo econômico e agroexportador brasileiro. Entre os anos de 1960 e 1970,
este tipo de explicação ganhou relevo.
Estava na ordem do dia a chamada “integração” da Amazônia ao Brasil. Em pleno regime ditatorial, a maioria dos estudos da chamada “história regional” – e o termo região aqui é muito relevante – partiam de uma ideia modelar para a compreensão desta “integração”. Dentro desta dicotomia, elaborada em uma junção
enganadora entre centro e periferia, havia pouco espaço para trabalhos inovadores e contestadores como os de Vicente Salles ou o de Anaíza Vergolino-Henry, que – de longa data – anunciavam a falácia de uma Amazônia apenas indígena, ressaltando a presença africana como fundante da cultura e história deste enorme território. É nesta nova-velha-linhagem de estudos que podemos compreender o que agora é lançado.
O livro de José Maia Bezerra Neto nasceu dentro de uma perspectiva de história que procura recolocar o território amazônico, e em especial o antigo espaço do Grão-Pará, em lugar de destaque dentro da colonização portuguesa e da formação da nação brasileira.
O autor iniciou seu estudo contestando o modelo agroexportador e monocultor como o determinante na explicação das relações de escravidão no Brasil. Contestou também a obrigatoriedade da integração da Amazônia e este modelo. No entanto, diferentemente do que ocorre em muitos estudos contemporâneos, Bezerra Neto não partiu para um estudo de caso, ou mesmo para a micro-história no intuito de dialogar e criticar os modelos preestabelecidos. Ele foi à
luta no terreno inimigo: a história econômica.Neste livro, irá o leitor deparar-se com alguns pontos de vista inovadores. Seu autor destacou a ação escrava e dos negros e mestiços da Amazônia e do Pará como específica e, simultaneamente, fundamental para a compreensão mais geral das relações sociais da escravidão no Brasil. Partindo da ideia de que a presença africana, embora tardia, foi essencial em alguns pontos centrais do antigo Estado do Grão-Pará e Maranhão, Bezerra Neto relativizou a questão numérica do diminuto volume absoluto de negros transpostos para a Amazônia nos séculos XVIII e XIX. Concentrada em algumas regiões amazônicas, a escravidão criou pela redondeza ares muito específicos. Assim, se nas antigas zonas escravistas a conti-
nuidade e o aumento do tráfico atlântico foi condição essencial ao bom funcionamento da ordem e da manutenção da escravidão, na Amazônia inauguraram-se outras formas de sustento desta ordem.
Nascia uma escravidão que, desde a época pombalina, caracterizou-se por ser mais crioula, miscigenada e pautada por um tipo de paternalismo muito mais próprio a outras zonas como o sul dos EUA do que ao Brasil. Ainda nas primeiras décadas do século XIX, ganharam relevância questões como o tráfico interprovincial e a junção do trabalho escravo africano com o de indígenas e homens livres pobres de diversas etnias. Na Amazônia, também surgiu mais preco-
cemente uma sociedade multicultural e miscigenada, que se tornou a característica essencial da sociedade brasileira do pós-1888. Desta forma, o estudo de Bezerra Neto liga-se ao que de mais novo vem sendo produzido sobre as relações sociais da escravidão no Brasil, a saber, estudos que demonstram a diversidade e a multiplicidade de organização do trabalho e de práticas sociais e culturais no mundo da escravidão.
Caminhando do mundo dos brancos para o dos negros, das questões econômicas para as culturais, este livro faz um percursoconhecido do grande público. Ele justifica a relevância econômica e social do negro na colonização local. Não chega a debater a especificidade da cultura africana local dentro do contexto brasileiro, mas isto já seria cobrar demais de um ensaio como o proposto agora.
Esta é uma tarefa que cabe ser efetivada em outro momento. No entanto, também este é mais um mérito do livro em pauta: ele certamente levará muitos autores e pesquisadores a buscar estudar e revisar o tema, suscitando novos trabalhos.
Belém, março de 2001.
Magda Ricci"

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