Artesão das águas (poesia)

Artesão das águas (poesia)
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UM SENTIDO PARA AS ÁGUAS Alonso Jr. Prof. Titular da Universidade do Estado do Pará Vamos tentar aqui oferecer ao leitor um modo de ler O Artesão das Águas como um conjunto de poemas em que uma mesma ideia básica, que chamaremos de tema, se repete, não obstante a variedade de assuntos neles tratados. Evidentemente que o tema identificado aqui, com base no cotejo dos versos da obra, não será o único a existir nela, nem a formulação deste tema em uma frase, como a que a seguir formularemos, estará isenta de receber acréscimos ou ser substituída por outras similares, quem sabe até melhores para expressá-lo. Isso não quer dizer, todavia, que o tema proposto em uma frase seja aleatório, de vez que deverá ser demonstrado, pelo menos, na maioria dos poemas, revelando, ou desvelando, assim, a unidade da obra. O modelo de análise que assim procede, chama-se temática. Sua pretensão maior é a de orientar a leitura de um livro de poemas demonstrando-lhe uma unidade que deriva do fato de eles se fundamentarem em uma questão existencial sobre a qual o poeta produz variantes, por outras palavras, o tema é uma questão existencial motivadora. Antônio Cândido utilizou este modelo em seu prefácio à obra Estrela da vida inteira de Manuel Bandeira, para a qual remeto os interessados em vê-lo aplicado por um mestre da análise literária no Brasil. Trata-se de um modelo de abordagem centrado no conteúdo dos versos, não explica a qualidade deles, o que chega a ser aqui desnecessário, porquanto quem o pratica, previamente escolhe a obra de um poeta por sua boa qualidade estética, de vez que manterá com ela, como diz acertadamente Jean-Pierre Richard, um dos formuladores do método, uma relação que bem pode ser chamada de adesão passional. Antes de começar, uma palavra sobre o regionalismo, de vez que os poemas referem-se ao espaço urbano de Belém e, vez por outra, usam palavras dialetalmente “nossas”, e entre nós, paraenses, quando se fala de um poeta do Norte, sempre há a expectativa de que se valorize sua regionalidade, sem o que o comentário parecerá incompleto, ou superficial. Estes aspectos, explique-se, serão aqui considerados como auxiliares na construção do problema existencial, serão tratados como circunstanciais por força mesmo do modelo analítico aplicado e também pelo motivo de que os versos os utilizam deste modo. Uma possibilidade de articulação entre os vinte e seis poemas da obra é vê-los como expressão do tema da permanente ressignificação de tudo, da constante e até inexorável conversão de uma coisa em outra, como se tudo se diluísse naquela verdade do rio que é misturar-se ao mar, pois tudo é agua, síntese, aliás, muito apropriada aos poemas da obra. O termo, o objetivo desta conversão, travessia, passagem, às vezes aceito com melancolia, às vezes repudiado com indignação, varia bastante de poema para poema, mas, quase sempre, leva a pensar que tudo está a serviço de uma alquimia em que coisas, seres, fatos, emoções, estão destinados a serem convertidos, muitas vezes, na própria poesia. Esta conversão é uma fatalidade, mas o resultado dela é produto humano, de onde resulta a postura ora de melancolia, ora de indignação assumidas pelo poeta. Vale observar que o termo conversão deve ser aqui dissociado do campo semântico religioso para que se evitem compreensões não pretendidas pela análise. Os versos que resumem este tema podem ser lidos em vários poemas da obra, tomemos, por agora, aqueles do final do poema Estamos Aí, e comecemos a sua demonstração pela análise deste poema mesmo. Em Estamos Aí, o poeta – aqui equivalente ao conceito de eu-lírico – está às margens do Rio Guamá, naquela altura em que ele passa próximo à Universidade Federal do Pará, onde se encontram também jovens estudantes, sendo o poema, inclusive, dedicado a eles – trata-se de obra do início dos anos 90. Todavia, apesar das referências “sociais”, aos meninos pobres do Combu, da constatação de que urbe e mata estão seccionados, da identificação do poeta com a esperança política dos jovens, o fecho do poema diz que o estar aí é o estar diante de um rio de líquida linguagem./Desse rio raiz do mar,/garçal de arcanos.IRio a levar nos ombros nossa juventude/para formar o coração de Deus e os oceanos... É este fecho que faz do poema algo além de uma simples manifestação de solidariedade, ou de registro da identificação do poeta com os jovens, e faz dele uma reflexão sobre o sentido de tudo que está ali registrado, dando-lhe a dimensão de algo que se converterá em outra coisa, pela ação do tempo que impede que o olhar seja livre, ou pela fatalidade mesma da circunstância de existir. Aquilo em que tudo se converterá, como o rio em mar, é dito nos versos finais do poema em uma metáfora que sugere ser justamente o próprio poema, ou, dito de outro modo, o que as palavras podem urdir: o rio de líquida linguagem vai formar o coração de Deus, isto é, se converterá em fonte de criação; causará, portanto, a poesia. Visto deste modo, o poema é uma reflexão sobre o sentido teleológico das coisas, isto é, de sua finalidade última, em seu fluxo no tempo, associado ao passar do rio, de sua conversão, enfim. Certamente que este final comporta uma leitura também religiosa: tudo flui para Deus, mas a recorrência às questões relativas ao poema, presentes em vários outros versos, sob a roupagem de outros assuntos, garantem a possibilidade, também, da primeira interpretação, que, como se verá, é mais condizente com o conjunto da obra. Retornemos ao início da obra. Tomemos agora o poema A hora da poesia. Confirmando o tema proposto para servir de fio condutor à leitura geral da obra, o poeta está novamente diante do rio, dissolvendo-se, ele próprio, no limo das palavras, com a poesia, sua consorte, chamando-o por todos os caminhos/fidelíssima /tecendo e destecendo sua vida. Ele mesmo é aqui a matéria prima da conversão. O poema seguinte, Na margem do Guamá, poderá ser incorporado ao tema se consideremos que nele o poeta se pergunta pela causa da existência de algo (o corte nas águas do rio) que tão logo existe, deixa de existir. Neste caso, o sulco (cicatriz) aberto nas águas do rio, pode funcionar como uma exemplificação perfeita do registro fugidio do ato mesmo da conversão. A sequência das causas apontadas, poeticamente bem escolhidas, articulam a dúvida sobre quem fez a cicatriz, mas importa, sobretudo, que o sulco (cicatriz) aberto nas águas, logo que aberto deixará de existir. Agrega-se, neste passo, ao tema, a variante da efemeridade. O poema Aonde me levas? Contém uma série de perguntas que falam do poeta sendo conduzido pela Vigilenga/-Verônica das águas-. Ao final desta condução, ele será convertido em algo. Como se observa, os elementos externos são forças cuja ação transformadora o sentido lhe escapa, conduzindo-o a um destino que não sabe qual. Se de danação: o ato de fazer poesia, o calvário do poema, se de salvação: Ao colo da que me ama. É sempre de conversão que ele nos fala. E sempre do rio, e sempre do fluxo, e sempre do trânsito entre uma coisa e outra. Estamos em face, até parece, da poetização do tema que foi a grande obsessão de Heráclito e já mereceu outras magistrais formulações. Como a de Jorge Luís Borges em seu Le Regret d’Héraclite: Yo que tantos hombres he sido, no he sido nunca/Aquel em cuyo amor desfallecía Matilde Urbach. Ainda que Borges nos diga ser este poema de Gaspar Camerarius, constante da obra Deliciae Poetarum Borussiae, VII,16, não devemos dar-lhe crédito, pois, como é muito bem sabido, ele passou a vida a mentir. A pergunta Que poeta fez voar esses poemas?, no primeiro verso do dístico que encerra A um bando de borboletas azuis, é ainda uma pergunta sobre quem converteu algo em outra coisa, pois fazer voar poemas é um ato de conversão, e aqui estamos em face de uma questão sobre um dos elementos essenciais da criação poética: a construção da metáfora. O poema todo é uma sucessão bem construída delas, desde a primeira que diz serem as borboletas Sílabas no lábio azul da brisa. Reitere-se aqui a presença da noção de efemeridade. Esta variante do tema está implícita no assunto das borboletas e do risco n’água, pois são fenômenos de extrema brevidade. Ela se repetirá no poema seguinte: No campus do Guamá, à beira-rio, pois após falar da manhã, da gaivota e do barco, o poeta o conclui afirmando que o rosto adolescente que ele vê por fim passar é, Esse rosto, perfeição nascida de um armistício entre o Demônio e Deus,/foi o remorso de beleza que ficou/no breve olhar que olhava/e no poema... Um armistício entre Deus e o Demônio é certamente um equívoco destinado a pouco durar, daí ter sido fixado em um breve olhar, afora ser uma imagem de rara beleza. Depois, em Movimentos, o coração do poeta é duas marés, é um ir e vir, é, portanto, pura conversão, pura transformação. E novamente o rio, a reforçar o sentido de transição, de fluxo, inerente às conversões. Poderíamos caminhar de poema a poema, mas assim a introdução iria longe demais e já se entendeu o espírito que a anima. Afora atravessar a obra tendo por guia um tema, há outras maneiras de lê-la. Valeria à pena, por exemplo, pesquisar, nos versos, a intertextualidade. Em A uma folha caindo, caberia comparar a sonoridade de seus versos àqueles que Paul Verlaine escreveu em Chanson d’automne. Regret, bem poderia ser aproximado a O Corvo de Edgar Allan Poe para, da comparação, comentar algumas sugestões de vocabulário e metáforas que ele contém. Baudelaire, citado no Chalet de ferro; Mário Faustino e Ruy Barata, sugeridos em Por que não; ainda pequenos ecos de Ruy, no segundo e quarto poemas do Oratório...; Camões, citado e transcrito em À sombra da samaumeira do Pavilhão de Arquitetura, todos estes poemas contêm aquele tipo de homenagem costumeiramente feito pelos bons poetas aos seus pares que trataram a poesia com refinamento e respeito. Todos, enfim, bem merecem uma análise à luz da intertextualidade. Como último exemplo demonstrativo do tema da permanente conversão de tudo, façamos neste momento a análise do poema que fecha a obra, denominado Oratório de Santa Maria de Belém do Grão-Pará, no qual está bastante nítida a variante que, por falta de expressão melhor, denominaremos de a tristeza que a mudança acarreta. O poema está dividido em cinco cantos. O primeiro é uma espécie de overture, na qual se exprime o caráter de construção de palavras que ele efetivamente é, apontando para ideia de que o leitor terá diante de si uma Belém reconstruída pela linguagem: Arcadas e sacadas e fonemas/sílabas de pedra. O segundo canto contém uma profusão de metáforas, entremeadas a comparações, daquele alto nível que Pablo Neruda legou à poesia, em que se caracteriza a desoladora situação, digamos, espiritual, da cidade, por ter sido apartada do rio: Alma extorquida/pássaro em porões/pesadelo vagando entre azulejos, a cidade excluída não pode ver o rio. O terceiro e o quarto cantos têm o formato de uma ladainha em que se pede, em que se roga pela cidade enclausurada e por isso impedida de ver o Rio Guamá. Mantém-se aqui o mesmo nível das imagens do canto anterior: Porque não vejo as catedrais de clorofila/antes do ofício das trevas,/rogai por mim! No terceiro canto, a cidade oficia a ladainha, no quarto quem o faz é o poeta: Piedade pela que não pode ver no breu das noite,/ a epifania dos navios iluminados. Vale transcrever o último canto integralmente: 5 Sem janelas para o rio a cidade sonâmbula o rio errante procuram-se perdendo-se como amantes que se espreitam no escuro de um remorso. O poema, a partir do segundo canto é um lamento sobre aquilo em que a cidade de Belém se converteu com o passar do tempo em que a incúria, a insensibilidade de muitos homens foi pouco a pouco impedindo-a de ver o rio Guamá. Neste instante, ele se funda em uma grande metonímia (o continente pelo conteúdo, a cidade pelos homens que a habitam) que por força da metáfora, é também prosopopeia, permitindo ao poeta exprimir sua tristeza por aquilo em que a cidade se converteu. É bem apropriado como poema de fecho da obra por falar em nome de todos os habitantes da urbe e da essencialidade desrespeitada do rio para as suas vidas. É a recriação poética – de certa forma anunciada na overture - da mais dramática das conversões. Se atentarmos para o título, veremos que o poeta, em certo sentido, se diz justamente o artesão daquilo que há de mais moldável, que mais facilmente pode ser convertido em outra coisa, que é a água, e assim poderíamos, seguindo nossa linha de análise, suficientemente demonstrada, dizer que o fenômeno existencial da conversão de tudo em outra coisa, especialmente em poesia, pode servir de fio condutor para que o leitor atravesse a obra O artesão das águas, de montante à jusante. Enfim, poderíamos estender o tema a outras obras, como as da trilogia denominadas Porantim, Deslendário e Altar em Chamas, de vez que elas são uma extensa e bem realizada recriação poética da degradação da idade mítica – aqui símbolo de um tempo feliz - de uma conversão, por conseguinte, em que as forças sociais e econômicas foram alterando a face primeira do mundo amazônico até reduzi-lo ao que é hoje. Neste sentido, O Artesão das Águas é uma retomada, com as devidas variações, evidentemente, de Altar em Chamas, fecho da trilogia, pois que prossegue poetizando o instante final desta conversão da idade mítica na Belém do presente, impedida de ver o Rio. Mas isso fica como sugestão para uma análise temática futura da obra completa do poeta.

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